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Para Sempre TóTó

TóTó é o nome carinhoso que ele me dá. Ar calmo e sereno versus um turbilhão interior. Serei eu assim, Para Sempre.

Para Sempre TóTó

TóTó é o nome carinhoso que ele me dá. Ar calmo e sereno versus um turbilhão interior. Serei eu assim, Para Sempre.

Sabes o que é a liberdade?

No outro dia perguntava ao meu pai "achas que tenho uma vida demasiado fácil?" 

 

Ele encolheu os ombros. Não quis dizer nada sobre isso. Não puxei por ele, sei pelo que passou. Sabia qual seria a resposta.

 

Este homem viveu dois anos no meio do descampado em Angola. Era ele que decifrava as mensagens. Era ele que sabia em primeira mão o que se passava lá fora, no campo de batalha e na metrópole.

 

No dia que subiu ao avião da força aérea portuguesa, no primeiro dia que viajou no ar, o sentimento que teve não foi de nervosismo misturado com alegria  e uma vontade enorme de saber como era andar lá no céu, como eu tive naquele dia em que viajei, em passeio, para a Madeira, com 27 anos.

 

O meu pai, com 22 anos, desejou que aquele ferro velho com hélices que o ensurdecia ,caísse e terminasse com aquela ansiedade, se era para morrer que morresse ali logo, antes de ver aquilo que estava à sua espera. 

 

Dois longos anos passaram, sem skype, sem idas trimestrais a casa, restavam as cartas em papel, enviadas ao seu amor, escritas vezes sem conta, que dissesse tudo mas de forma a que a sua intimidade não fosse revelada aos olhos da censura. 

 

Nunca escrevi uma carta ao meu amor, basicamente eram sms que nunca ninguém leu e censurou. Pude namorar às escondidas e à frente de todos. Ninguém me passou uma multa por ir de mãos dadas na rua, com o meu amor. 

 

O meu pai voltou da guerra pouco antes do 25 de abril de 1974. Desta vez viajava num avião de passageiros da TAP, com  todo o conforto que aquele momento merecia. Uma medida compensatória. 

 

Quando chegou a terra desejou voltar ao seu amor. Desejou esquecer tudo o que deixou para trás naquela viagem. Não o submeteram a exames físicos, nem psicológicos. Aquele homem voltou ao seu lugar, à sua gente, à sua vida normal antes da guerra, como se nada de especial tivesse acontecido, como se se tratasse de uma temporada no estrangeiro a trabalhar. 

 

Continuou a trabalhar, muitas vezes, novamente longe do seu amor, mas a vida, mesmo depois da liberdade, era dura.

 

Teve dois filhos, um menino pouco depois de voltar da colónia, uma menina pouco antes de sonhar com porcos a dar ovos.

 

O meu pai não aguentou o horror por que passou. Adoeceu. 

 

" O fácil é relativo. Mas sim, tens uma vida em que podes ser verdadeiramente feliz e deves aproveitá-la"

 

Sou filha do Ultramar. Sei o que é a liberdade.

 

 

Liberdade.jpeg

 

 

 

 

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