Nobel da Paz com M - Murad e Mukwege
A 5 de outubro de 2018 foram galardoados com o Prémio Nobel da Paz, Nadia Murad e Denis Mukwege, ambos activistas contra a violação sexual em contexto de guerra.
A juventude de Nadia Murad foi interrompida no Verão de 2014, quando um grupo de combatentes do Daesh invadiu a sua aldeia no Norte do Iraque durante a violenta expansão que levou o grupo extremista e jihadista a controlar grande parte do país. A sua mãe e seis dos seus irmãos foram executados por se recusarem a converter ao islão. Para Nadia, os fanáticos tinham outros planos.
Com outras mulheres jovens, a yazidi Nadia foi levada para Mossul, a capital do “califado” governado pelo Daesh e entrou no mercado de escravas sexuais, tornando-se num despojo de guerra. Passou três meses enjaulada, forçada a ter sexo de forma contínua, a ser torturada e agredida. Calcula-se que mais de três mil mulheres e crianças yazidis tenham sido sujeitas a algo semelhante.
Em Novembro, conseguiu fugir ao “califado”, após várias tentativas falhadas. Ao lado de Lamiya Aji Bashar, que foi raptada na mesma aldeia, Nadia tornou-se um rosto e uma voz para denunciar a violência quotidiana perpetrada pelos extremistas.
Apesar dos incontáveis traumas de que ainda padecem, percorreram o mundo para contar na primeira pessoa o drama que viveram, mostrando as cicatrizes e partilhando a sua dor. Em troca pediam justiça. Milhares de outras mulheres viviam ainda subjugadas pelo Daesh e Nadia e Lamiya apenas queriam que o mundo não esquecesse. Ainda hoje, quando o grupo terrorista é uma sombra do que já foi, permanece por apurar o paradeiro de muitas destas mulheres.
- Público -
Nadia editou no ano passado o seu livro Eu serei a última , onde relata a sua história, o seu tormento e onde deixa o seu desejo mais profundo, ser a última a viver esta história.
Há mais de 20 anos que este médico ginecologista se dedica a operar mulheres vítimas de violações – e a dar-lhes força para voltarem a gostar de si.
A história sangrenta da República Democrática do Congo guiou o médico Denis Mukwege. Filho de um pastor, começou por estudar obstetrícia num dos países com a mais elevada taxa de natalidade do mundo. Mas a guerra civil que tomou conta do país nos anos 1990 começou a trazer-lhe para a mesa de operações vítimas de violações em estado muito grave.
Em 1999 fundou o Hospital de Panzi, em Bukavu, e desde então operou mais de 20 mil mulheres. Em certos dias chegou a operar durante 18 horas seguidas. E era precisamente isso que estava a fazer quando soube que tinha recebido o Prémio Nobel. Foi do hospital que Mukwege agradeceu a decisão do Comité Norueguês do Nobel, que dedicou “às sobreviventes de todo o mundo”.
Por causa do seu trabalho, o Hospital de Panzi tornou-se num dos poucos lugares onde as mulheres congolesas se podem sentir seguras. Tão importante como o trabalho clínico de Mukwege é a dimensão psicológica. “Posso ser a única pessoa a quem elas podem expressar o que sentem”
O contacto diário com o sofrimento causado pela guerra tornou Mukwege num dos activistas mais ouvidos em África. Tem-se manifestado publicamente contra a continuidade do Presidente congolês Joseph Kabila no poder – as eleições têm sido adiadas indefinidamente – e pede o fim da cultura de dominação patriarcal, que considera responsável pelas atrocidades no seu país e em África.
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