Dizer Não transforma-nos.
Lembram-se do episódio da entrevista de emprego?
Fui à segunda entrevista, onde me apresentaram a proposta salarial. No dia anterior tinha feito muitas contas. No dia anterior a minha cabeça não descansou, quase que não dormi, passei o dia da entrevista mal disposta, com nervoso miudinho, a avaliar o meu trabalho e a ter ainda mais certezas que não queria continuar muito mais tempo ali, porque acho que tenho mais para dar e também para receber.
No caminho pensei não sei quantas vezes em ligar a dar uma desculpa e desistir. Não! Tu ainda não sabes nada, se tiveres que desistir é depois, não agora!
Lá fui eu.
Enquanto esperava fui conversando com a Directora dos Recursos Humanos, tentando perceber como era o trabalho, o ambiente. Comecei a vacilar.
Oh Deus! O que é que eu faço?
Foi mais do que estava à espera. Mostraram-me o trabalho que tinha que fazer. Pedi um dia para pensar. Ficou tudo a olhar para mim, tinham levado um murro no estômago, eles tinham a certeza que eu ia aceitar imediatamente e eu, contrariamente, não lhes dei a resposta que queriam.
No outro dia disse que Não.
Ponderei muito e dou graças a esta entrevista por me ter feito pensar como deve ser na minha vida profissional.
É certo que eu não concordo com a maneira como funcionam as pessoas no meu trabalho, liderar é um verbo que não faz parte do dicionário da empresa, e isso irrita-me profundamente. Em alturas de stress devemos seguir a mesma linha, ao invés de nos afastarem e de nos fazer pensar Que se lixe, faço o mais que conseguir, eles é que ganham os milhões, só recebo uma minima parte.
Quero aprender mais mas quero aprender bem, quero rodear-me de pessoas certas, eu sei que existem. É claro que isso também depende de mim, do meu esforço e do meu empenho para a causa. Julgar que está tudo garantido, trabalhar o resto da vida ali porque é perto de casa, porque já me habituei ao esquema, porque temos que ter paciência, porque as pessoas têm a sua personalidade, o seu feitio, porque provavelmente o ambiente noutro sitio vai ser igual, não passam de suposições, que, claro está, tem o seu peso mas não tem que ser determinante para a vida.
Mas não me arrependo de ter ido parar ali. Desenvolve-me bastante pessoalmente, ensina-me a ter artimanhas para lidar com as pessoas, faz-me envolver na realidade do que é a minha profissão, que em outras vertentes não nos permite ter essa noção, ensina-me a ver o errado e a pensar e agir no que acho certo.
E tudo isto pesou quando disse Não.
Porque a minha intuição diz-me que há algo melhor para mim, algo que me vai realizar profissionalmente, mesmo que agora não concorde com as pessoas à minha volta, com as suas teorias, com a forma de trabalhar e de estar. Só tenho que agarrar nisso como se se tratasse de uma oportunidade e, para isso, não me posso afastar drasticamente daquilo que eu gosto, da minha profissão. Tenho que insistir e trabalhar muito, para mim.
